As Palavras dos Outros

Os Velvet Underground tocavam Who Loves The Sun, numa ironia do iPod, no instante exacto em que parou em frente ao jazigo da família. Não tinha chave, nem lhe tinha ocorrido pedi-la. Ninguém pede uma chave para falar com quem já morreu. Mas esta certeza deixava de o ser enquanto contemplava a porta de ferro castanha. Não ia falar com uma porta. Não podia esperar da porta uma resposta mais assertiva da que receberia dos que eternamente dormiam lá dentro. Suspirou. Talvez fosse mesmo um disparate. Os Velvet continuaram com Sweet Jane. Perguntou-se se ela gostava desta música e soube que nunca ia saber a resposta. Talvez. Se não ia saber uma coisa tão simples, como podia esperar uma resposta para qualquer outra questão. Olhou para a porta e pensou nos que ali habitavam. Não tinha conhecido ninguém, excepto, claro, aquela com quem vinha falar. Sentia que conhecia o Avô, mas sabia que as palavras de outros são sempre insuficientes para nos apresentarem alguém.

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