A Preto e Branco

Gosto de contos infantis. E de contos populares. Não o digo como se tivesse descoberto esta paixão recentemente. Tenho fortes e reconfortantes memórias da voz compassada da minha avó a ler-me contos para dormir. No colégio escolhia invariavelmente a ‘Leitura’ como passatempo para as tardes livres de sexta-feira. E na biblioteca escura, com o cheiro inconfundível a histórias já muito contadas, deliciava-me com a voz da Amélia desfiando histórias de príncipes e princesas e castelos com terríveis torres de ferro.

Gosto dessas histórias porque são simples. Nelas o Bom é bom e o Mal é mau. De uma forma clara, mesmo que as personagens se transvistam por umas linhas. O lobo mau é mau e ninguém perde tempo a tentar explicar a sua relação com os pais ou porque é que nunca se integrou na lógica social das criaturas do bosque encantado.

Por diversas e variadas razões dei por mim a percorrer alfarrabistas em busca dos livros que encheram a minha infancia. Tendo encontrado alguns e reencontrando estas vidas tão simples, espartilhadas nas duas reduzidas dimensões do papel amarelado, e interrogo-me quando foi que me compliquei, ou que a vida me complicou. Quando deixaram as histórias de ser a preto e branco e passaram a ser feitas de pantones infinitos de cinzentos e desculpas e passados irrelevantes para a história que quero contar.

 

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