A Lápis

Fui a uma mercearia de Campo de Ourique. Daquelas que cheiram a mercearia e em que o merceeiro me trata por “menina” enquanto escolhe as clementinas mais doces. O merceeiro fez-me a conta a papel e lápis, com aquela precisão de quem despreza máquinas de apoio a neurónios preguiçosos. Fixei-me no lápis. Muito afiado e pequenino. Um lápis que não era novo e que vive na certeza de que vai ser usado até que o carvão deixe de ser suficiente para desenhar números.

E lembrei-me do meu avô. E dos papelinhos escritos a lápis, desses lápis que duram até que o carvão se esgote em traços. E lembrei-me da forma como punha a língua de fora enquanto escrevia, em letra muito pequena e bem desenhada. A mim, que trocava de lápis a cada trimestre, abandonando os que roía, os que já não reluziam de novos, esta fidelidade fazia-me espécie. Ainda hoje me surpreende. Não herdei os lápis – algum ficou por usar até ao fim. Não herdei a paciência nem a letra pequena e bem desenhada. Ficou-me apenas a involuntária língua de fora sempre que me deparo com tarefas que exijam concentração.

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